Conto
Dedilhados Quarentenados – Berinjela

Dedilhados Quarentenados – Berinjela

Caminhava com passos de algodão dentro do meu quarto. A frescura que me corria ao corpo, era resultado do recente banho que acaba de tomar.

Reparei para o meu relógio e o mesmo marcava 14 horas. Pela intensidade do calor que se fazia sentir, dava para perceber que estávamos no pico daquela intensa vaga.

Dirigindo-me à minha cabeceira, segurei no frasco do meu óleo de amêndoas. O objectivo era um e único: manter a  melanina do meu corpo hidratada e tonificar ainda mais a cor negra que está carimbada em mim.

Entrei num relacionamento muito íntimo com o meu espelho, e vestindo somente uma cueca, tratava de contemplar os resultados obtidos no meu treino logo cedo no ginásio. Estava espetacular, sentia-me vigoroso e com muita pose. O braço estava rijo, o peito trabalhado e a perna em dia. Sim, tinha como pisar a estrada com classe e confiança.

Para terminar toda minha arrumação, borrifei o meu perfume em mim. Nada melhor que um jovem arrumado e cheiroso, acredite, esse truque atrapalha até a mais difícil das mulheres.

Caindo a noite, encontrava-me circulando no centro do restaurante onde trabalho como garçom. De forma eficiente, atendia com muito gosto e alegria aos clientes. Curiosamente, vi minha colega vindo em minha direcção com um ar preocupado.

— Kinho, aquelas clientes “whites” estão aqui, peço que vás atende-las . — Pediu ela com uma cara de súplica.

— Por que não vais tu? Somos todos garçons aqui. — Questionei intrigado.

— Portuguesas. Umas chatas e estressadas. E digo mais, sou negra e mulher, elas ainda podem humilhar-me Kinho. Elas gostam de ser atendidas por si, por favor.

Mais uma vez cedi aos pedidos da menina e dirigi-me a mesa da Raquel.

— Ouve lá Kinho, demoraste vir atender-nos. Estamos famintas, o que temos para hoje? — Falou Raquel enquanto fitava-me nos olhos.

Entreguei o menu e afastei-me esperando ser solicitado novamente. Enquanto faziam as escolhas, percebi que às vezes reparavam para mim de forma provocante . Sentia-me incomodado e curioso em simultâneo, mas preferi manter-me calmo.

Feitos os pedidos, servi as clientes e voltei a ocupar o meu posto. Durante a refeição, as moças continuavam lançando olhares indiscretos para mim. Mantive-me firme e comportado, sabia que era um jovem com pose e postura avassaladora.

Não tardou e chamaram-me para pedir-me a conta. Chegado à mesa, eis que mais uma vez fui abordado.

— Oh Kinho, vês que a mesa hoje está composta por uma pessoa à mais? Acredito que não a conheças . — Era Raquel falando.

— Sim senhora, normalmente vejo somente duas. A cara da terceira é nova para mim. — Respondi timidamente e com a cabeça encurvada, nunca se sabe quando é que um cliente está bem ou mal humorado.

— Bem, essa é a Luísa, minha prima. Ela chegou de Lisboa ontem à noite. Preciso de tua ajuda, traga-me a conta juntamente com o teu contacto escrito no verso. Atenção, seja discreto. — Continuou Raquel.

Nada fiz a não ser cumprir com o pedido da cliente. Feitos os pagamentos, as moças ausentaram-se da sala e continuei com o meu trabalho.

Quando recuperei o meu celular, vi uma mensagem da Raquel incumbindo-me a missão de mostrar a cidade para Luísa. Sorte ou não, mais uma vez os meus dotes conservados dentro do meu uniforme preto e branco faziam efeito.

Larguei o expediente por volta das 22 horas e fui de encontro com a Luísa na Julius Nyerere.

— Levei muito tempo? Peço imensas desculpas, o meu trabalho é um bocado puxado. — Tentei iniciar o papo com a Luísa.

— Nada por isso, estás no direito de cumprir com os teus deveres. — Respondeu Luísa enquanto sorria para mim.

— Então, vamos conhecer a cidade? — Questionei a moça.

— Bem, sinto-me cansada. Façamos o seguinte, porque não conheço a ti primeiro e mais tarde ficamos com a cidade? — A moça foi afrontosa.

Não me fiz de rogado. Convidou-me a subir até ao apartamento onde estava hospedada. Copo após copo, Luísa contava-me de sua vida em Lisboa e seus planos em Maputo.

Curioso, continuava escutando para saber com quem lhe dava. Era uma jovem empresária e com planos de investimento na cidade. Estava tudo em minhas mãos, tinha de engatar aquela jovem e ficava com a vida feita para sempre.

— Podes me levar para um local mais aconchegante? Esta sala está a deixar-me entediado. — Tentei partir para o ataque.

— Certamente o meu quarto é o local mais aconchegante. Vamos para lá e aproveitemos a noite. — Luísa falava enquanto arrastava-me pela mão.

Chegados no quarto não tive espaço de manobra. Uma força excessiva lançou-me contra porta e meu pescoço foi engatado pela mocinha que acabava de se transformar numa felina.

— Selvagem. — Soprei no ouvido da Luísa.

— Vejamos se consegues ser mais que eu. — Luísa respondeu enquanto calava-me com um beijo intenso.

— Não devias brincar com fogo dessa maneira. — Rebati.

— Quero ver a fúria do touro que há si agindo em mim. — Contra-atacou Luísa.

Sem muito tempo a perder, senti um corpo pulando e se enlaçando em mim. Negando a dominação feminina que se fazia presente, joguei a jovem na cabeceira e arranquei a blusa que trajava.

— Engula-me com o tamanho do teu corpo. Ofusca a palidez da minha cor com  a brutalidade da tua. Pinta-me com o carvão que reveste o teu perfil. — Luísa sussurrava enquanto eu beijava o seu pescoço.

Num passe de mágica deixei-na nua, sem tarjas e muito menos pudores. Apliquei meus toques e golpes de mestre. Aticei ela até implorar por mim.

— Façamos diferente das histórias passadas. Faça de mim sua escrava. Bata-me com o chicote que Deus te deu. Faça diferente, não me faças sangrar, que o teu chicote seja gerador de prazeres infinitos em mim.  — Continuava Luísa.

— Sairás magoada, te aviso. — Tentei assustar a moça.

— Não! Seja meu navegador, descobridor de mundos. Navega pelos hemisférios do meu corpo e faça descobertas nas profundezas dos meus orifícios. Seja como um mineiro, descubra o precioso líquido feminino que há em mim da mesma maneira que se descobre um rubi nas profundezas de um garimpo. — Continuava suplicando Luísa atiçando ainda mais a minha masculinidade.

Estava possuída, as manobras labiais que eu aplicava deixavam-na cada vez mais sedenta.

— Sou a terra fértil, seja a enxada que escava em mim. Cultiva em mim as sementes que carregas contigo. Possua-me Kinho. Faça de mim a mulher mais feliz desta noite.

— Primeiro mostra-me o que tens reservado para mim. — Respondi todo provocante transferindo para ela o protagonismo da nossa cena.

Joguei-me de costas para cama e ela tomou posição. Arrancou-me os sapatos e a camiseta. Passou a boca e a língua por todo o meu peito e abdômen .

— Vejamos o homem que está dentro de ti. — Falou Luísa enquanto deslizava sobre o meu corpo.

Toda frenética, arrancou-me as calças. Sem perder tempo baixou as minhas cuecas e pulou da cama se afastando de mim.

— Não é possível! Só isso? — Gritou Luísa com cara de desapontada.

— Como assim só isso? — Perguntei espantado enquanto me levantava da cama.

— Afinal não estou em África? Não és tu Africano? — Continuou questionando intrigada.

— Concretamente moçambicano, não te entendo Luísa!

— Então, não são os africanos que têm a berinjela do tamanho do mundo? Disseram-me que irias  fazer-me sentir algo que nunca senti. Mas com essa coisa minúscula que carregas dentro das cuecas, sinceramente falando, não vai rolar.

— Mas Luísa, tamanho não…— Fui interrompido.

— Desculpa-me, mas esse tamanho é o meu cotidiano, estou habituada. Quero algo diferente, mais africano, mais negro, mais exótico. Kinho, tu não me entendes!

— Então é assim? Esse tempo todo não era por mim e sim pelo tamanho do meu órgão? Luísa, é para isso que nós servimos? Apenas para satisfazer os vossos desejos selvagens? Somos somente instrumentos sexuais? — Questionei revoltado.

— Imensas desculpas Kinho, mas não tens aquilo que eu procuro. — Luísa terminou enquanto se vestia.

Vesti-me com muita rapidez e abandonei aquele edifício. Sentia-me insultado, rejeitado, usado e descartado.

Não me sentia negro e muito menos africano. Pela primeira vez na vida tive a minha essência como negro determinada pelo tamanho da minha berinjela.

É assim como somos vistos, os detentores dos maiores órgãos sexuais do mundo. Não é por amor ou qualquer outro sentimento de carinho. É pela diferença e pelos momentos de prazer que podemos proporcionar.

Cheguei a casa abatido. Questionava-me  quem eu era, como era e donde era. Não me sentia com raça e muito menos com cor. Se fosse negro, acabava de representar muito mal a raça na cama da Luísa.

Ecton Inácio… in “Dedilhados Quarentenados”

De Ecton Inácio