Crónicas

CIDADE FANTASMA

Pela primeira vez vejo esta cidade respirando morta. Sem floristas e nem “pitas” de pele côr de amarula para agradar a vista. Sem nada. A cidade é surreal!

Cachaceiros lúcidos, moscas se perdendo pelo espaço desnutridas, sem o que comer e nem onde pousar. Tudo contrasta. Ao alto dos edifícios, roupas penduradas nos estendais e sacadas anunciam esperança, banderolas de presença. Aos solteiros, um brinde á solidão!

O vilão virológico correu a todos das ruas sem dar tréguas.

 Portões trancados, alguns com os seguintes dizeres:

– “Olá, tudo bem? Estamos de quarentena. Porque você saíu de sua casa? Nós não estamos recebendo ninguém aqui. Volte para sua e fique de quarentena também. E por favor, não toque na nossa porta. Obrigado! Para mais informações veja o Telejornal.”

Campanhas de comunicação em saúde geram conflitos de pensamentos aos chamados pela morte. E a morte tem dessas. A morte caça. Cria aparentes oportunidades de escapar – se às ruas, por vezes às famosas “barracas do pulmão” e, pimba, o vírus ganha um petisco.

A campanha é “FICA EM CASA” e, cumpra – se!

Nossos pais pegaram em armas e combateram o inimigo visível e sobrevivemos até aqui. E nós, temos que combater de mãos limpas e prudência mental a um apocalipse virológico.

Cumpra – se porque um dia voltaremos as sombras das nossas acácias loiras cheias de charme e frescura. Aos nossos cantinhos de lazer e prazer agora limitados, para saciarmos nossos sentidos ressequidos e famintos.

Sim! Acreditem, nós voltaremos!

À nossa confusão do tráfego estonteante com diversos carros, motocicletas, peões engarrafando passeios. À diversidade de culturas nas ruas populosas! Desde o engravatado que apruma – se para assumir seu posto num escritório suntuoso, passando pelo autônomo que segue mais uma vez a sua luta diária, até chegar aos “donos da rua” que envoltos num cobertor velho e chamuscado, sentem – se obrigados a despertar quando o sol lhes bate a porta, ao linguajar apurado do senhor que especializou – se no senso critico contrastando com a simplicidade da fala da Dona Cristina, que vai cantando a publicidade do bolo de laranja do seu jeito comunicativo simples.

Voltaremos sos nossos Édens e praias solitárias. A longas filas de viaturas supensas na ponte Maputo – Katembe tal como colônias de formigas em uma empreitada. Voltaremos a nossas barracas “pandar” como sempre, as mamanas de capulanas voltarão a fazer o nó lateral da cintura para lutar contra pobreza, os “modjeiros” – poetas das ruas, voltarão ao pão nosso de cada dia para compor e cantar melodias dos Chipamanines, Liberdades, Matolas dentre outros destinos, em paragens inundadas de sobreviventes.

Nós voltaremos ao trabalho, as escolas, aos trajetos e sonhos. Equanto isso que seja este um momento de reconciliação familiar e requalificação de planos para quando tudo isto passar, implementar velozmente.

Rãsman Virgílio Ubisse.

 160 Total de Vizualizações,  2 Vizualizações de Hoje